domingo, 10 de junho de 2012

FILME: "QUANTO VALE OU É POR QUILO" - setembro/2007

Fizemos este evento porque tinhamos marcado um bate-papo com Iná Camargo Costa para novembro. Ela foi roterista deste filme e queriamos que os participantes assistissem o filme para melhor aproveitar a visita da Iná Camargo.
Convite:
O ESPAÇO CULTURAL ORÉ
ESTARÁ EXIBINDO NO DIA
13 DE SETEMBRO(QUINTA-FEIRA)
O FILME :
“ QUANTO VALE OU É POR QUILO”,
DIREÇÃO DE SÉRGIO BIANCHI.

Sinopse : “QUANTO VALE OU É POR QUILO?” é uma livre adaptação livre do conto "Pai Conta Mãe", de Machado de Assis. O filme traça um paralelo entre a vida no período da escravidão e a sociedade brasileira contemporânea, focalizando as semelhanças existentes no contexto social e econômico das duas épocas.Apresentação.Quanto vale o ser humano?QUANTO VALE OU É POR QUILO? desnuda uma classe que se aproveita e fatura em cima dos excluídos, desvendando como acontece esse marketing social do chamado terceiro setor e, também, como a classe-média e o proletariado se inserem nesse novo modelo.No filme, várias situações e personagens se embaralham, desenhando em cores fortes um painel de caldeirão sócio-cultural do país.Assistir a um filme de Sérgio Bianchi, à primeira vista, pode causar um certo desconforto, mas à medida que entramos no universo estético-cultural do diretor, percebemos que o contundente discurso de seus filmes é uma forma de pôr em foco os desmandos de uma sociedade alienada de si mesma, em permanente crise de valores.No filme , o que vemos é a representação de um Brasil onde imperam a corrupção, a violência, o seqüestro, as desigualdades e a ilusão de uma harmonia racial que só existe nas novelas de tv.Cineastas de muitos rótulos - demolidor, corrosivo, radical, anárquico, etc, etc, etc. O cinema de Sérgio Bianchi está acima desses rótulos. É um cinema substantivo, sem concessão, que só quer fazer uma reflexão sobre a realidade brasileira. Em QUANTO VALE OU É POR QUILO? a questão central é refletir quanto vale o ser humano. Só isso... ou melhor, tudo isso.

ABAIXO, UMA ESTREVISTA COM SÉRGIO BIANCHI PARA A FOLHA DE SÃO PAULO.


22/02/2002 - 03h16
"Não procuro o culpado, e sim o inocente", diz Bianchi

do colunista da Folha

Na entrevista a seguir, o diretor Sergio Bianchi comenta seu longa-metragem "Quanto Vale ou É por Quilo?" no contexto do seu cinema e da sua reflexão sobre as mazelas do país. "No fundo, a gente faz sempre o mesmo filme", afirma.
(JGC)

Folha - "Quanto Vale ou É por Quilo?" é uma radicalização de seu filme anterior, "Cronicamente Inviável"?
Sergio Bianchi -
Talvez. Mas a Iná Camargo Costa, que colaborou no roteiro, disse que o novo filme deveria se chamar "Cronicamente Viável", porque nele todas as pessoas são dedicadas ao bem (risos).

Folha - Mas as formas atuais de "dedicar-se ao bem" são o principal alvo do filme, não?
Bianchi -
Não tenho nada contra o desejo de ajudar aos outros, mas acho um horror essas associações de filantropia. Uma classe social que cria no seu cotidiano o desarranjo total e, por sentimento de culpa, resolve assumir o papel do Estado. Para essa classe, as crianças pobres devem continuar existindo para que o mercado continue.

Se as pessoas que se dedicam sinceramente à filantropia usassem essa energia para pressionar o Estado, poderia ser criado algum parâmetro civilizatório.

Folha - Seu filme fará um paralelo entre a "coisificação" do ser humano hoje e no tempo da escravidão. O que vivemos é herança escravista ou é uma mercantilização de outra natureza?
Bianchi -
Acho que a herança escravista é inerente à nossa cultura, principalmente nas áreas do país em que a escravatura foi mais forte. Só que agora a questão não é cor, não é raça, não é nada. O valor de mercado do ser humano pobre é o seu final, a sua queda. A desgraça do miserável, a não-solução do seu problema, é o que interessa à elite.
O marketing social aplaca a culpa e ainda rende dinheiro. Isso me agride profundamente. Pô, ou faz a revolução ou assume o cinismo. Essa hipocrisia dói.

Folha - Seu longa anterior era implacável com as saídas políticas e institucionais. Agora, você ataca o voluntariado, as ONGs... Qual é a saída? O terrorismo?
Bianchi -
Não tenho nenhuma obrigação de apontar caminhos. Meu emprego não é esse. Acho que só o fato de mostrar aspectos ocultos da realidade e colocar o espectador para pensar já é saudável. E diverti-lo, também, por que não? O que eu abomino são essas pessoas "Pollyannas", otimistas, que ficam tentando camuflar a realidade.

Folha - Você acha que o cinema brasileiro tem feito isso?
Bianchi -
Acho que nesse chamado renascimento do cinema nacional tem gente com uma grande vontade de fazer filmes dentro do sistema mercadológico hollywoodiano. Não dá certo.

O circuito continua dominado por 90% de cinema americano, que é o lixo paranóico da cultura imperial americana. Se você não tem o espaço para a exibição, fica esquizofrênica essa procura de um mercado falso.

Folha - Mesmo criticando as "ações filantrópicas", seu roteiro mostra uma simpatia por alguns personagens, como a negra grávida que se rebela contra o patrão, o que indica uma mudança de tom com relação aos filmes anteriores.
Bianchi -
Foi proposital. Acho que é a idade. Esse é o filme da minha maturidade senil. Acho que hoje não estou mais procurando quem é o culpado. Quero saber quem é o inocente.
Além da Arminda, que você citou, acho que há uma certa simpatia também pelo Dido, o personagem do sequestrador.

Folha - Já que esse é o filme da sua maturidade, como você vê a evolução da sua obra?
Bianchi -
Não penso muito nisso, mas vejo que tenho duas épocas. Meus primeiros curtas, como "O Ônibus" e "Segunda Besta", são belos, doces, mostrando pessoas bonitas em situações inusitadas.
Já "Mato Eles?" e todos os longas entram em outro registro, que é o da risadinha irônica diante do que me agride. Como se dissesse: "Ah, é assim, é? Então toma". Concordo que há um bafo de ressentimento neles. Mas não acho possível voltar à primeira fase.

Folha - O que mudou?
Bianchi -
Tudo. Eu me achava um cara incrível, que circulava em todas as rodas. Andava com a alta classe, com a esquerda, a direita, os travestis, os artistas. Frequentava a feira de antiguidades do Masp e o centrão da cidade, os Jardins e a Boca do Lixo.

Agora não dá mais. Trinta anos sem colégio levaram a cidade, o país, a outra coisa. Você sai para ir ao cinema e encontra uma mulher de 80 anos morrendo na tua porta. Na colônia cinematográfica, ninguém se encontra, ninguém fala de cinema. Ficam uns querendo morder os outros.

Folha - O sonho de um país harmonioso acabou?
Bianchi -
Acabou. Não acredito mais num país harmonioso. Agora, o bom colégio teria de ser uma coisa imposta. Quem iria impor? Quem quer de fato mudar a situação?

quinta-feira, 7 de junho de 2012

BRAGUINHA - agosto/2007

Em agosto o nosso encontro foi homenagear Carlos Alberto Ferreira Braga, o João de Barro, o Braguinha, "100  ANOS DE ALEGRIA". Braguinha nasceu no Rio de Janeiro, em 29 de março de 1907. Faleceu no dia 24 de dezembro de 2006, aos 99 anos.
Além de ser um dos maiores compositores da música brasileira, foi autor de inumeras marchinhas de carnaval. Três marchas tocadas no carnaval de 1938 se tornaram clássicos, "As Pastorinhas" (com Noel Rosa), "Touradas em Madrid" e "Yes, Nós Temos Bananas"(com Alberto Ribeiro). Escreveu clássicos da MPB, como a letra de "Carinhoso" e "Copacabana". E também um grande compositor de músicas infantis, que se tornaram um clássico, como "Chapéuzinho Vermelho", a "História da Dona Baratinha", "A Canoa Virou", dentre outras, e também foi autor de muitas músicas para festas juninas, "Capelinha de Melão", "Sobe Balão".
Recebeu do Rio de Janeiro em sua homenagem sua estátua. Está localizada em Copacabana, logo na saída do túnel Engenheiro Coelho Cintra/Túnes Novo. Foi desenhada por Otto Dumovich.


"A VIDA SÓ GOSTA DE QUEM GOSTA DELA"
                                                               (Braguinha)


GRÊMIO RECREATIVO E CULTURAL MANGUEIRA DO AMANHÃ
CARNAVAL 2007

YES, NÓS TEMOS BRAGUINHA.

No carnaval de 2007, ao fazer a releitura do enredo “Yes, Nós Temos Braguinha” o Grêmio Recreativo e Cultural Mangueira do Amanhã busca reverenciar o centenário de Carlos Alberto Ferreira Braga, o João de Barro, o Braguinha, uma das maiores figuras da cultura e da música popular brasileira, artista surpreendente por sua versatilidade e brasilidade.

O enredo originalmente apresentado no Carnaval de 1984 está também carregado de símbolos, pois marca uma Mangueira que reage à onda de descaracterização da cultura brasileira e mostra a riqueza da criação nacional. Max Lopes, atual carnavalesco da Estação Primeira, foi, também, o carnavalesco que traduziu toda a poesia e a brasilidade do enredo em 1984, nos proporcionando um dos maiores enredos carnavalescos de todos os tempos.
O ano de 1984 marca a inauguração da Passarela dos Desfiles da
Marques de Sapucaí,
carinhosamente identificada como Sambódromo, palco dos grandes desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Na inauguração do Sambódromo a Estação Primeira de Mangueira desfilou, e levantou as arquibancadas conquistou o título de campeã da segunda-feira e, no sábado seguinte, sagra-se SUPERCAMPEÃ, sendo a única agremiação detentora desse título.Embalada pelo samba-enredo de Hélio Turco, Jurandir, Comprido, Arroz e Jajá, eleito, em pesquisa realizada no ano 2000, o SAMBA DO SÉCULO o desfile da Estação Primeira de Mangueira em 1984 marcou inesquecíveis momentos do carnaval carioca. Mas no ano de seu centenário, apesar de todas as belas lembranças revividas do desfile de 1984, nosso grande homenageado é Braguinha sua vida, sua obra que apresentamos a seguir.

Em 1907 nascia no Rio de Janeiro Carlos Alberto Ferreira Braga, um homem que se dedicou integralmente às artes. Braguinha como era chamado, nasceu em um momento muito especial para a cultura brasileira, uma época muito bonita de grandes movimentos culturais e sociais, sobretudo no cinema brasileiro, por isso este período foi conhecido como Bela Época. Desde muito cedo se encantou pela música e fez dela seu dia-a dia.

Durante seu período escolar, conheceu um grande amigo, instrumentalista, chamado Henrique Brito que acabou despertando nele o gosto pela arte musical e, aos 16 anos Braguinha compôs sua primeira música. Braguinha foi um estudante de Arquitetura e para fugir das perseguições do pai, que não queria o filho envolvido com artes,
adotou o pseudônimo de João de Barro. A paixão pela música cresceu e em 1928, junto com grandes amigos que também se tornariam mais tarde grandes artistas, Braguinha encantou o mundo musical com o conjunto Flor do Tempo. Em 1929, num canto mais forte ainda surge o Bando dos Tangarás. No desafio constante de cantar Braguinha, Noel Rosa, Henrique Brito, Alvinho e Almirante àquela época já haviam gravado 19 músicas, 15 delas compostas por Braguinha. E foram muitos clássicos que se tornaram imortais:
Melindrosas
O Rio Amanheceu Cantando
Seu Libório
Fim de Semana em Paquetá
Laura
Carinhoso
A saudade mata a gente
Felicidade
Onde o Céu Azul é Mais Azul
Copacabana, entre outras.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

N O E L R O S A - junho/2007

O convite:

No dia 04 de maio de 2007, completou-se o 70º aniversário da morte de Noel Rosa, consagrado compositor do samba carioca, sendo este o motivo do nosso próximo encontro, que acontecerá na quinta-feira, 28 de junho às 20h00.


N O E L   R O S A " O   P O E T A    DA   V I L A "


Programação:

-Curta-metragem sobre Noel Rosa, "Com que roupa?";

-Apresentação José Adriano Fenerick*;nos contando sobre o autor (Noel Rosa), sua obra, história de sua vida, e sua música ligada a cultura brasileira e definição de sua canção.

-Terminamos a apresentação com alguns amigos cantando de modo "amador" algumas músicas. Paulo César os acompanhou ao som de seu violão.

"Palpite Infeliz" - Prof.José Gilberto
"Fita-amarela" - Marcão (do Mamma mia)
"Com que roupa eu vou?" - Adriana Alves
"Ultimo desejo" -profª Maria Esmeralda
"As pastorinhas" - profªTeresa Cristina
"Pierrô apaixonado" - Prof. João (da Homeoderm)


*José Adriano Fenerick é autor do livro Nem do Morro, Nem da Cidade: as transformações do samba e a indústria cultural 1920-1945 (São Paulo, Annablume/Fapesp, 2005).


Imprimimos o artigo abaixo e distribuimos aos presentes.

Vida & Arte

ARTIGO

Polêmica de sambista

José Adriano Fenerick
Especial para O POVO
Autor de livro sobre Noel Rosa narra as polêmicas envolvendo o compositor e Wilson Batista. José Adriano afirma ainda que Noel deu ao samba consciência do seu aspecto popular.
NOEL Rosa e Lindaura: casamento cheio de controvérsia (Divulgação)
A história dos primórdios do samba poderia muito bem ser contada por meio das polêmicas travadas entre os sambistas. Desde as disputas pela autoria do famoso Pelo Telefone (gravado em 1917), tido como o "primeiro samba", até o entrevero entre Sinhô, o aclamado Rei do Samba, e a "turma" do Pixinguinha (Donga, China etc.) na década de 1920, o samba, de certo modo, foi se criando e se formando em meio a polêmicas e discussões. Noel Rosa, como não poderia ser diferente, também deu sua contribuição à maturação do samba por meio de uma longa polêmica com Wilson Batista, travada exclusivamente nas regras da arte. Dessa polêmica entre Noel e Wilson, ou a ela relacionada, é preciso que se diga imediatamente, saíram verdadeiros clássicos do repertório noelesco, tais como: Palpite Infeliz e Feitiço da Vila. Apenas por isso já valeria a pena relembrar esse debate entre Wilson e Noel. Entretanto, o que quero chamar a atenção é para uma questão que se colocava como pano de fundo em tal polêmica: a mercantilização do samba e a profissionalização do sambista.

A polêmica entre Noel e Wilson teve início em 1933, por ocasião do lançamento do samba Lenço no Pescoço. Gravado por Silvio Caldas, este samba de Wilson Batista dizia em seus versos iniciais: 'Meu chapéu do lado/ tamanco arrastando/ lenço no pescoço/ navalha no bolso/ eu passo gingando/ provoco e desafio/ eu tenho orgulho em ser tão vadio...'. Essa descrição do malandro e essa apologia da vadiagem não passariam desapercebidas em 1933. Como de fato não passaram. Muitos compositores da época recriminaram publicamente este samba, sendo que o compositor e jornalista Orestes Barbosa chegou a publicar em sua coluna: "num momento em que se faz a higiene poética do samba, a nova produção de Silvio Caldas, pregando o crime por música, não tem perdão". Num momento em que o samba se profissionalizava nas rádios comerciais - que associavam prestígio e aceitação social de uma música com a possibilidade de atrair mais patrocinadores - não é difícil de entender as palavras de Orestes. Todavia, a resposta mais contundente a Lenço no Pescoço, e a qual o próprio Wilson levaria em conta, veio de Noel Rosa. O Poeta da Vila, ainda em 1933, responderia a Wilson com Rapaz Folgado. Este samba de Noel responde verso a verso o samba de Wilson: 'Deixa de arrastar o teu tamanco/ Pois tamanco nunca foi sandália/ E tira do pescoço o lenço branco/ Compra sapato e gravata/ Joga fora essa navalha/ Que te atrapalha'. Além disso, nos versos finais de seu samba, Noel ainda diz: 'Malandro é palavra derrotista/ Que só serve pra tirar/ Todo o valor do sambista/ Proponho ao povo civilizado/ Não te chamar de malandro/ E sim de rapaz folgado'.

A questão da profissionalização do sambista, no disco e no rádio, estava na pauta das discussões do início da década de 1930. Quando Noel responde ao samba de Wilson Batista, ele o faz visando preservar a imagem do sambista, do compositor, num meio onde as possibilidades de se viver do samba já podiam ser vislumbradas. O Poeta da Vila, que sempre optou por uma estratégia diferente para abordar o malandro, "desmonta" a personagem de Wilson Batista, tanto no seu aspecto físico (da indumentária) como no seu modo de se relacionar com o samba, e a recoloca, por meio de "propostas", num plano regido por novas possibilidades de atuação. Noel tem o cuidado de não atacar diretamente o malandro, ele prefere dizer que é a palavra malandro o fator que estaria tirando "todo o valor do sambista". Não sendo o malandro propriamente dito o alvo de Noel, nos resta verificar o criador de sambas (o compositor). Nesse quesito, o Filósofo do Samba, propõe ao compositor popular o "papel e lápis". Isto é, propõe ao sambista que, senão totalmente ao menos em parte, substitua a "experiência vivida" pelo conhecimento como instrumento para a criação. Noel, assim, propõe ao compositor que ao menos leve em conta as novas relações do samba com a sociedade, para não dizer com o mercado de música, e termina aconselhando o malandro (compositor) a "arranjar um amor e um violão" (os dois temas - amor e violão - aceitos pela música popular do período e passíveis de serem veiculados pelas rádios e ouvidos pelo "povo civilizado": os nossos queridos ouvintes). Interessava ao Poeta da Vila, tal como a outros sambistas da época, não podemos nos esquecer, que o samba tivesse um reconhecimento social e comercial, e o rádio se apresentava como o grande meio difusor de música do período.

A polêmica entre Noel e Wilson, iniciada em 1933, se arrastaria ainda por mais alguns sambas. Seja como for, no decorrer dos anos da polêmica, Noel compõe em 1934 - (sem o intuito de prolongar a discussão, até porque por esta época ele já nem se lembrava mais dela) -, o Feitiço da Vila, uma música na qual o Filósofo do Samba, mais uma vez, procurava homenagear seu bairro, Vila Isabel: 'A Vila tem/ um feitiço sem farofa/ sem vela e sem vintém/ que nos faz bem/ tendo o nome de Princesa/ transformou o samba/ num feitiço decente/ que prende a gente'... Esse samba provocou a resposta imediata de Wilson, com É Conversa Fiada, e a tréplica de Noel com Palpite Infeliz. Mas é o Feitiço da Vila que aqui nos interessa. Noel diz que em Vila Isabel o samba tem um certo feitiço (que enebria a quem o ouve), tal como o samba era entendido anteriormente, devido a sua relação inicial com a cultura negra, particularmente com o candomblé. Porém, é um feitiço diferente, é um feitiço decente, o que de antemão já denota uma preocupação com a aceitação social (e comercial) do samba. Tal como em Rapaz Folgado, onde Noel deixa o malandro nu, decompondo o seu aspecto exterior (a navalha, o lenço no pescoço, o tamanco), em Feitiço da Vila o samba também passa a ser desprovido de suas significações exteriores. Continuando a ser feitiço, o samba, entretanto, não carrega mais a sua significação religiosa oriunda candomblé: "a vela, a farofa e o vintém". Noel, deste modo, torna consciente o samba de seu novo sentido social e simbólico numa sociedade em franca modernização capitalista. O samba agora é um produto musical - passível de ser vendido em forma de disco e veiculado nas rádios -, e a atividade do (compositor) sambista, que ele tanto cuidou em sua polêmica com Wilson, é agora uma atividade profissional. Com Noel Rosa pode-se dizer que o samba tornou-se consciente de seu aspecto de música popular, em seu sentido urbano e moderno.

JOSÉ ADRIANO FENERICK é autor do livro Nem do Morro, Nem da Cidade: as transformações do samba e a indústria cultural 1920-1945 (São Paulo, Annablume/Fapesp, 2005).


O N O M E - junho/2007

Nesses cinco eventos que realizamos, nos chamavamos simplesmente por "Espaço Cultural". Sentimos nesse momento que precisávamos de um nome. Queriamos desvincular o espaço que nos era e ainda é cedido para uma identidade própria. Escolhemos uns nomes e dentre deles pedimos para os amigos e alunas da yoga votarem. Ganhou  "ORÉ", o nome que tinha a cara de tudo que tinha sido feito até então. Criado por um grupo de amigos e realizado pelos mesmos.
A palavra Oré no dicionário tupi-português (pesquisado na internet em 20/06/2007, no site www.redebrasileira.com/tupi/vocabulario/o.osp ) quer dizer :" nós, nossos, nosso, nossa, nossas". E assim começamos a ser chamado. Espaço Cultural Oré.

C A M I N H O S P A R A O C O R A Ç Ã O - maio/2007

Apresentado por Maria Esmeralda Payão Demattê.

O convite:

Lembrar da nossa infância talvez nos ajude a entender melhor quem somos e a resgatar nossos sonhos abandonados.....então vamos pensar.....discutir......juntos nesse próximo encontro, cujo tema será:

C A M I N H O S   P A R A   O   C O R A Ç Ã O
apresentado por Maria Soares Payão Demattê.

Apresentação:

- A "Canção dos Homens", Tholba Phane;

- "Bola de meia, bola de gude", Milton Nascimento;

- Sobre meninos - Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues e Stanislaw Ponte Preta;

- conto "Vestida de Preto", Mario de Andrade;

-Sequência de fotografias:

Arquivos de Esmeralda, Araci, Sérgio, Cláudia, Gilberto;

-Música "Perto do Coração", Nelson Ayres.

R E V O L U Ç Ã O D A N I C A R A G U A - abril/2007

Nosso convite para este evento:

Ex-combatente da FNLS, Luis Omar Dominguez Espinoza, irá nos contar sobre:

-Intromissão americana (1930);
-familia Somoza;
-história de Augusto César Sandino;
-fundação e histórico da FNLS, Frente Sandinista de Libertação Nacional. Triunfo e programa (1979);
-agressão dos americanos nos anos 80. perda do poder em 1990;
-reconquista do poder através do voto em 2006.

terça-feira, 5 de junho de 2012

CONVERSAS IMPROVISADAS SOBRE O J A Z Z - março/2007

Esta reunião aconteceu numa sexta-feira, 23 de março às 20h00. O Prof. José Adriano Fenerick nos falou sobre o que é o jazz e o blues. Abaixo está um texto que ele nos deu para lermos e discutirmos.



27/05/2003 - 03h04     CAMINHO DAS PEDRAS: TODO AQUELE JAZZ
 CASSIANO ELEK MACHADO da Folha de S.Paulo.

Uma dessas histórias clássicas que suingam seu esqueleto nos porões do jazz é a da senhora que pergunta a um figurão do gênero o que era aquela música que ele tocava. "Se você não sabe o que é jazz com essa idade, não perca tempo tentando", teria dito o pianista Fats Waller. "Se você tem de perguntar o que é jazz é porque nunca vai saber", teria dito Louis Armstrong, a quem se atribui ainda: "Se você não sabe por que gostar de jazz, ninguém vai ser capaz de explicar para você".




Jazz não é algo para ser explicado —e um grande sucesso, na voz de Billie Holliday, foi o tema "Don't Explain"—, mas, se há algo a sublinhar sobre essa música, é a revolução que ela trouxe à arte de improvisar, de usar uma mesma base para criar infindáveis frases musicais.
É importante dizer que o desenvolvimento histórico desse gênero musical é fascinante, a ponto de seduzir um historiador como o inglês Eric Hobsbawm a escrever um belo trabalho só sobre o tema: "História Social do Jazz" (editora Paz e Terra, 1990).
Foi de forma oral e auditiva que a coisa toda começou. Como um dos únicos grandes gêneros artísticos criados unicamente por homens marginalizados em todos os sentidos (tema que Hobsbawm aborda no livro "Heróis e Revolucionários" —Paz e Terra, 1998), o jazz nem tem seu marco zero muito bem definido.
Considera-se como suas primeiras gravações as da Original Dixieland Jazz Band (que também usou a grafia "jass"), em 1917, mas, pelo menos 20 anos antes, já se fazia no Sul negro dos Estados Unidos algo que hoje batizaríamos como as quatro letras terminadas nos dois zês.
Nasceu, basicamente, em bandinhas de marcha da cidade de Nova Orleans. Nessa cidade, o jazz encontrou o caldeirão adequado para sua mistura de blues, ragtime, spirituals e marchas, salpicados todos por vidas cotidianas bem das cascas-grossas.
Desses anônimos Homeros, ficou a "Odisséia", mas não seus nomes. Talvez o mais antigo jazzista conhecido seja o cornetista Buddy Bolden, cuja banda, de 1895, muitos consideram a parteira primeira do gênero. Não é Bolden, que enlouqueceu em 1906 sem deixar suas performances gravadas, nem os pioneiros disponíveis em discos o menu recomendável para a iniciação.
Alguns chegam ao jazz pelas pedras do blues, gênero com essência semelhante e um pouco mais palatável. Mas não é absurdo sugerir um atalho direto pelo caminho dos grandes mestres.
Se a pintura teve momentos áureos nos séculos 16 e 17, foi na nossa vizinhança, 50, 60 anos atrás, o apogeu do gênero de Miles Davis.
E por que o "gênero de Miles Davis", e não de Louis Armstrong, Charlie Parker, John Coltrane, Ornette Coleman e outros dos "sete pilares" da sabedoria jazzística? Porque talvez nenhuma das grandes artes até hoje tenha tido tantas revoluções internas em tão pouco tempo, e o trompetista de Illinois foi protagonista da maior parte delas.
Nascido em 1926 e morto 65 anos depois, ele foi uma espécie de Pablo Picasso do jazz. Davis foi coadjuvante na criação do espevitado estilo bebop, nos anos 40, protagonista de sua "antítese", o mais contido "cool", na porta de entrada dos 50, ajudou a moldar em seguida o hardbop, grosso modo síntese dos dois, e assim por diante. Milhas e milhas adiante (ou, em inglês, "Miles Ahead", nome de um disco seu). Seu trompete esteve na criação do fusion, aproximação do jazz com o rock —o álbum "Bitches Brew" é um marco disso—, e chegou até mesmo ao eletrônico.
Para alguns críticos, experimentalismos como esses de Miles (ou o free jazz, do libertário Ornette Coleman) acabaram sufocando o gênero. Não são poucos os que acreditam que o "fim da história" dessa história se deu em algum lugar entre os 60 e 70.
Mas o jazz, claro, não morreu. Pule pelas pedras alinhavadas ao lado e descubra por quê.


(Cassiano Elek Machado, 27, repórter da Ilustrada, é devoto de São Thelonious Monk, pianista e padroeiro do jazz crocante).